quarta-feira, 4 de junho de 2014

Asfixia

Às vezes tenho medo da morte, confesso. Estou um bocado adoentado, com dificuldade em respirar. Há muitas formas de morrer mas a asfixia é uma das que mais medo mete. É rápida, certo. Mas mete medo. Respirar é uma necessidade tão básica que nem nos apercebemos que o estamos sempre a fazer. E se de repente isso deixasse de ser possível? Nas duas primeiras tentativas provavelmente pensamos que tudo se vai resolver. À terceira o medo deve começar a crescer. À quarta, o pânico, a dor no peito, a aflição, o debate físico por uns centímetros cúbicos de ar. Uff. Que pensamento horrível. Vou mas é dormir.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre as mudanças de opinião

Há já algum tempo que tomei consciência de que sou capaz de mudar opinião sobre um dado tópico com relativa facilidade. Algumas pessoas costumam brincar comigo por causa disso. A verdade é que se isso pode ser bom, também tem desvantagens, sendo a principal delas a dificuldade em fazer opções. X é melhor que Y - então escolho X. Espera, agora por este motivo ou por aquele, passei a achar que Y é melhor. Então escolho Y. Isto na prática torna-se bastante complicado, porque a vida é feita de inúmeras escolhas deste género e por vezes não nos podemos mesmo dar ao luxo de permanecer no limbo da indecisão e incerteza.

Por outro lado, não sou agarrado a uma dada realidade e tenho a mente aberta a novas opções e perspectivas. Costumo generalizar isto caracterizando-me como uma pessoa muito pouco rancorosa: é muito grave hoje, amanhã é um bocadinho menos e menos ainda no dia depois de amanhã. Mudei de opinião, relativizei. O que é bom, acho que viver agarrado a rancores deve ser uma experiência muito negativa.

Por oposição tenho-me deparado recentemente com situações em que as pessoas agem de forma diametralmente oposta a esta: o facto de terem tido uma opinião forte acerca de uma dada matéria impede-as de aceitar novas realidades. Claro que se pode efectivamente manter uma opinião ao longo do tempo, é até natural. O que não é natural é que em matérias menos subjectivas, como por exemplo matérias científicas, haja recusa em aceitar novas realidades. Veja-se por exemplo o caso do aquecimento global / alterações climáticas. Há ainda cépticos que são da opinião de que isso não passa de um conjunto de tretas inventadas por cientistas com interesses obscuros, quando na verdade há inúmeras evidências de que o processo não só é real como já está em curso. Há dados, medições, provas, públicos para quem quiser tirar a prova dos nove por si mesmo. Não é uma questão de opinião. É no entanto uma nova realidade, incómoda, que alguns se recusam a aceitar, seja por casmurrice ou, esses sim, devido a algum interesse obscuro.

Finalmente há a incoerência: aquela pessoa que apregoa um dado discurso normalmente politicamente correcto, mas que se prova não passar de teoria. Apregoa-se um conjunto de valores morais a alto e bom som e age-se de forma oposta. Com este tipo de pessoas não sei nem tenho intenções de saber lidar. Uma pessoa cujas acções não são coerentes com o discurso é imprevisível. Nunca sabemos o que pode decorrer dali. É o tipo de pessoa que nunca vamos realmente conhecer. A opinião de uma pessoa assim é irrelevante, nunca saberemos qual o eu que a emitiu: o eu moralmente correcto, ou o eu da prática, das acções. Que me interessa se uma pessoa é da opinião que devemos ser fiéis às pessoas que gostam de nós se na primeira oportunidade lhes espeta uma faca nas costas?

Concluindo: mudar de opinião não tem nada de errado. É a base do método científico tal como o conhecemos: se me provares por A+B que a tua teoria está correcta, eu deito a minha para o lixo, somos todos felizes e a ciência avançou mais um bocadinho. Nem sempre se deve encarar uma pessoa que o faz como vira-casacas, no sentido pejorativo do termo; antes prefiro pensar que poderá ter sido oferecida a essa pessoa uma realidade diferente com a qual ela se poderá identificar melhor.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Sobre o destino

Curioso ler os últimos posts que tinha escrito aqui. Apetece-me agora escrever precisamente no sentido oposto, o que não deixa de ser irónico. Esta semana que passou estive fora, em trabalho. Revi colegas e amigos que trabalham pelos quatro cantos do mundo, desde a Escandinávia à costa oeste americana. Dispõem de super computadores, trabalham em super equipas em projectos megalómanos, contam-me que se fartam de viajar por sítios exóticos, ganham bem e têm uma boa vida. Eu tenho uma vida regular, um trabalho regular. Não sou infeliz mas também não sou feliz. E confrontar-me de novo com essas realidades que outrora foram a minha deu-me que pensar. Alguns deles até diziam "devias vir para lá trabalhar, ias dar-te bem". Se calhar. Por algum motivo tenho tido este iman por Lisboa. É a terra que considero minha, mas tudo nesta vida é efémero, se calhar até deixava de o ser com alguma facilidade. Há alturas em que questionamos tudo (em especial naqueles dias em que levamos um murro no estomago). Será que o meu lugar é aqui? Será que faço o que gosto? Será que é aqui que vou ser feliz? Uma vez disseram-me que forças do oculto garantiam que não, que o meu destino está longe de Lisboa. Tenho andado a contrariar essas previsões, mas se calhar ando mesmo a remar contra a maré. Quem sabe se isso explica o marasmo em que me encontro pessoal e profissionalmente? Quando olho para trás na minha vida, as melhores histórias que tenho para contar de facto passaram-se noutros sítios. Sim, claro: o conforto dos amigos e da família aqui próximos é impagável. Mas o melhor que levamos desta vida acontece precisamente quando deixamos a nossa zona de conforto para trás.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

last week in LA

Que saudades de escrever um post mais longo! O Facebook matou a minha pica de outrora para escrever, e tao mais facil escrever uma mensagem curtinha com o que nos vai na alma. Hoje, com as noticias relativas ao crash do blogger, lembrei-me que tinha criado um blog ha uns tempos e resolvi voltar, a ver por quanto tempo.
Ultima semana em LA, daqui a uma semana estou de malas aviadas. Vou finalmente conhecer a Big Apple (e nao me refiro a um novo iMac), para de la regressar finalmente a Lisboa. Despedidas, planos de ultima hora e trabalho que convem ser acabado para deixar boa impressao. Estou contente por regressar, esta temporada mostrou-me que nao dou para emigrante. Nao vejo sentido em ter um bom trabalho se depois passo a vida a lamentar-me com saudades de tudo e todos em Portugal. Alem disso nao me considero a altura de um sitio tao bom como a NASA, pelo que tenho que me limitar a minha insignificancia e tentar pelo menos ganhar algum respeito na relativamente pequena comunidade cientifica portuguesa. Foi uma excelente oportunidade, conheci pessoas e vivi experiencias que serao recordadas com carinho no futuro. Mas todo o show off que e necessario para conseguir uma boa posicao aqui nao e de facto para mim, falta-me o talento para isso.
Alem disso, a vida pessoal e muito importante, e nao se consegue ter uma se nao optarmos por nos enraizar nalgum lado. E eh isso mesmo que pretendo fazer.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Back to the past

O regresso a Lisboa está a revelar-se um regresso ao passado. Quando fui para Los Angeles, sentia-me agarrado a certas pessoas e a distância encarregou-se de esfriar certas relações. Senti por isso necessidade de regressar ao passado e aproximar-me de pessoas que nem sequer foram grandes amigas e agora têm potencial para o ser. Curioso, como olho para as pessoas e reparo como cresceram, como ultrapassaram as duvidas e a imaturidade própria de quem está a crescer. Não penso em ninguém em particular, com excepção de mim próprio. Creio-me mais seguro, com mais controlo sobre o que quero e quem quero à minha volta. E gosto dessa sensação.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Páscoa

Não se pode comer carne na Quaresma. Esta frase foi mote para algumas discussões sobre o eterno dilema Ciência vs Religião. O interessante é que as mesmas discussões foram tidas com colegas e amigos cientistas. Uns afirmam-se católicos praticantes. Outros católicos assim assim. Depois há as pessoas cépticas, como eu. Há ainda uma quarta categoria, que são as pessoas que apesar não serem devotas, acreditam que quer queiramos quer não, estamos embebidos numa matriz cultural judaico-cristã e portanto estamos sujeitos aos conceitos de bem e mal que a Igreja Católica professa.

Eu desde (muito) cedo questionei a veracidade do que é dito na catequese. Ainda arrisquei a andar lá uns tempos, mas foi Sol de pouca dura, felizmente. Nos dias de hoje, o real poder da Igreja Católica sobre o comum mortal é muito pouco. Em especial sobre as pessoas com educação, visto que estas são incitadas durante a sua escolaridade a questionar, a duvidar de tudo o que as rodeia. Porque não então questionar a existência de Deus? Terá mesmo de existir um ser superior que justifique a nossa presença aqui? Não é que a Ciência seja capaz de explicar tudo, longe disso. Os cientistas já sabem muito, mas muito não é tudo. Mas é nisso mesmo que a Ciência e a Religião diferem. Se um dia alguém aparecer com uma explicação melhor, aceitaremos essa explicação. A Religião, pelo contrário, professa uma série de supostas verdades inquestionáveis, desde há 2000 anos (há dias tentaram vender-me uma bíblia na rua, dizendo que toda ela era ciência...). Como é isto possível? A nossa percepção do mundo mudou tanto desde essa altura! Além disso, há sempre as teorias da conspiração que dizem que a Igreja moldou as escritas sagradas de acordo com os seus interesses, e tendo em conta o poder que o clero já teve noutros tempos, acredito bastante nisso.

No entanto, ainda há hoje em dia pessoas susceptíveis que acreditam piamente no que diz o padre da sua paróquia ou mesmo o Papa. Ora, basta ver que se tratam de pessoas, escolhidas por outras pessoas para ocuparem o lugar que ocupam. E as pessoas erram, não são seres perfeitos. Assim como temos professores que são melhores que outros, ou políticos mais sérios que outros ou juízes mais justos e imparciais que outros. Isso devia ser suficiente para justificar alguma incredulidade perante certas barbaridade que se dizem nas igrejas e noutros locais de culto.

Muito se tem falado sobre as declarações do Papa sobre os potenciais riscos associados ao uso de preservativo. Não vou falar mais dessas declarações absurdas, mas não posso deixar de notar o sério risco que correm as pessoas que, na sua devoção profunda, podem acreditar nisso e deixar de usar preservativo nos seus relacionamentos íntimos. Pois se o Papa disse, ele é que sabe, quem é que há de saber?

Cada vez mais fico feliz com a minha ignorância. Que me importa não saber o quê ou quem é que nos pôs cá? Já sei que descendemos dos macacos, para mim essa explicação já basta. Agora não me peçam para acreditar que as pessoas nascem inexplicavelmente e depois morrem, para ressuscitar uns dias depois, para acabar umas coisas que tinham ficado por fazer. Ah e no meio inventam uma série de coisas em que a humanidade tem de acreditar piamente.

Pelo menos isso faz com que tenhamos agora uns diazinhos de descanso, que sabem às mil maravilhas. Menos mal. Espero que haja carne ao jantar na sexta-feira. Mas já sei que não vai haver. O senhor padre diz que não se deve...

segunda-feira, 30 de março de 2009